terça-feira, 20 de setembro de 2016

A galinhada do Dr. Gentili



Por Innocêncio Viégas[*]

            Ontem recebi um telefonema do confrade e ex-presidente da Academia de Letras de Brasília, o bom irmão, escritor e poeta José Carlos Gentili. O motivo era um convite para almoçar com ele, no dia seguinte.
            Sendo eu um dos componentes da Comissão de Admissão da Academia, logo imaginei ser a conversa sobre algum candidato à nossa Academia. Preparei-me para o almoço. Tenho por costume levar um bom vinho para o amigo que visito.
            Logo fui procurar na pequena adega do nosso Rancho, um vinho para um gaúcho e de família italiana. Depois de muito garimpar, achei um Brunello di Montalcino, safra de 2004.
            A manhã passou voando e logo eu estava na estrada, montando em meu burro velho, marchando em direção à Vila Gentili.
            Em lá chegando, pasmem, avistei um grande número de automóveis estacionados ao longo da calçada de todos os vizinhos do Dr. Gentili. Nesse átimo avistei um dos acadêmicos que também chegava, o Dr. Adirson Jr. Que me vendo chegar, esperou um pouco por mim.
            Difícil foi achar uma vaga para amarrar o burro. Depois de apear, abracei-me com o confrade e seguimos rumo à Vila. No umbral da residência fomos recebidos pelos anfitriões, Marilene e Gentili.
            Lá dentro, o mundo literário se agitava e a conversa era a mais cultural possível. Pedi a bênção a todos eles. Confreiras e confrades se revezavam para apertar a minha mão calosa, calosa de tanto rachar lenha aqui no Rancho. Não falavam em nada que não fosse filigranas das letras e das artes. Logo descobri que todos também foram “enganados” com o convite para ser o único na mesa do casal.
            A hora do almoço se aproximava e ainda faltavam alguns acadêmicos. O presidente deu um tempo e logo usou a palavra, saudou a todos, lembrou o poeta Fagundes de Oliveira, exaltou seus feitos e suas qualidades; disse dos seus trinta anos como Orador oficial da Casa de Mauro Castro e lamentou a sua ausência e de sua esposa Heronisa, por motivo de força maior. Informou que o almoço com os confrades era um motivo para agradecer a ajuda emprestada pelos ilustres confrades e confreiras, por todo esse tempo em que esteve à frente da Academia de Letras de Brasília. A Drª. Marilene – seu anjo da guarda – também agradeceu a presença de todos e disse que esse almoço não será o último e que outros ainda virão.
            Aplaudimos e ficamos felizes com a possibilidade da repetição do ágape.
O telefone chama. A dona da casa atende. Era a confreira Ivone que avisava estar a caminho e lutando com o trânsito engarrafado e que logo chegaria, e chegou a tempo de ver o início do lauto almoço.
A casa que nos acolheu não perde em nada para as casas do cinema francês ou italiano. As paredes ornamentadas com os mais belos quadros retratando paisagens dos famosos pintores renascentistas. Grandes esculturas em madeira de lei, retratando os mais milagrosos santos da Corte dos Céus.
Cristaleiras centenárias nos inebriavam com os mais finos cristais da Boêmia. Os móveis, um verdadeiro relicário das mais finas madeiras do Oriente. A mesa principal, de pinho-de-riga, estava coberta com fina toalha imaculada, tecida com fios de algodão do Egito.
            Sobre a mesa, um belo almoço cheiroso e fumegante. Uma grande terrina barroca aconchegava uma nobre galinhada. Nobre porque as galinhas vieram do reinado da Fazenda da Antinha, lá dos confins meridionais do Goiás Velho. Galinhas mundanas. Mundanas por serem criadas soltas naquele mundo selvagem. Gordas de tanto ciscarem e mariscarem as mais tenras minhoquinhas, que são pagas para fertilizarem o belo pasto, e também por degustarem ervas medicinais e para temperos, o que lhes garante já virem temperadas.
            Acompanhando a galinhada, saladas coloridas e enfeitadas com todas as cores da bela natureza. Ao lado das saladas, azeite de oliva grego, mostarda francesa, vinagre balsâmico da Córsega, flor de sal da Malásia e uma agradável pimenta caribenha para despertar as papilas gustativas dos comensais.
            As bebidas, ah! Estas iam da pura água daquelas cacimbas minerais da Fazenda, ao mais puro vinho das terras altas do saudoso Portugal, que nos dizeres do poeta maior, é o “Jardim da Europa à beira-mar plantado”. Sucos naturais diversos, refrigerantes geladíssimos e, lá num cantinho da mesa, próximo a um velho piano que lembra Mozart, uma escultural garrafa da “marvada” pinga, perfumada e bela.
            Primeiro as damas, depois os cavalheiros, e todos nós ficamos mais robustos do que chegamos.
            A sobremesa ia do bolo de rolo pernambucano às doçuras caramelizadas dos pudins, bolos, ambrosia, doces de caldas e frutas frescas que provocavam os proibidos das doçuras, mas todos esqueceram os conselhos médicos e muitos pecaram.
            A tarde se encaminhava para a hora da sesta e o cafezinho “corajoso” anunciava a saideira.
            Agradecemos a acolhida, as comidas, as bebidas e louvamos os anfitriões pelos belos momentos a nós proporcionados.
            Saímos levando no corpo todos os sabores dos acepipes, e na alma, a alegria do fraternal encontro dos velhos e bons amigos.
            Foi um almoço gostoso e inesquecível ... a galinhada do Dr. Gentili.
            Boa sesta!
            Bons sonhos!
                       

                                                                                   Brasília, 20/09/2016.


[*]  Teólogo – Escritor; Membro das academias: Acad. de Letras de Brasília; Acad. Maçônica de Letras do DF; Acad. Maçônica de Letras Paranaense; Acad. Maçônica de Letras e Artes do Brasil – GOB; Acad. Taguatinguense de Letras; Confraria dos Amigos da Boa Mesa – COMES; Academia Maçônica de Letras do Maranhão (correspondente); Academia Maçônica Internacional de Letras; ANE – Associação Nacional de Escritores – CERAT.

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